Review : 2064 : Read Only Memories

A criação e proliferação de plataformas digitais como o Kickstarter, pese embora os ocasionais problemas e aproveitamento por gente menos escrupulosa, permitiu ( e permite) o financiamento e concretização de projectos vários que, de outra forma, teriam o parto mais dificultado ou que não nasceriam de todo. 2064 : Read Only Memories é um desses exemplos. Aproveitando o recente update gratuito que o jogo recebeu, achei a ocasião para o jogar e, neste momento, analisá-lo.

Por interesse minimamente histórico, há que dizer que o jogo não foi  meramente um acto isolado de uma ou mais pessoas ou estúdio, antes uma espécie de side project de um outro projecto igualmente popularizado e financiado pela referida plataforma online : GaymerX.

A ideia por detrás de GaymerX seria a criação de um evento em volta da cultura gamer e outras com o público LGBT como principal alvo, com painéis e discussões temáticas direccionadas a esse mesmo público. Após o sucesso no financiamento do evento, membros da equipa original embarcaram noutros projectos com a mesma temática ou público em mente, nascendo assim o jogo aqui em análise, uma aventura point & click a lembrar os bons velhos clássicos do género.

Em 2064 : Read Only Memories encarnamos o papel de um jornalista / aspirante a escritor numa (Neo) São Francisco futurista, onde a integração de tecnologia (figurativa e literalmente) na vida humana alcançou níveis nunca antes vistos. Uma das facetas dessa evolução tecnológica dá-se pelo nome de Relationship Organizational Machines (ROM), uma espécie de robôs extremamente popularizados um pouco por todo o mundo e que podem desempenhar um vasto número de tarefas.

Certa noite, são acordados a meio da noite por Turing. Até então desconhecido por vocês, Turing é um ROM muito peculiar, já que se trata da primeira máquina ciente .Turing vem em busca do vosso auxílio uma vez que o seu criador e vosso amigo pessoal, Hayden Webber, foi raptado do seu apartamento por elementos desconhecidos. Concordando em auxiliar Turing, partem pelas ruas salpicadas a neon e tecnologia de Neo-San Francisco em busca da verdade sobre que aconteceu a Webber e o porquê.

A história, especialmente para os fãs sci-fi / cyberpunk,  não ganhará nenhum prémio de mérito literário ou originalidade, mas ainda assim está bem estruturada, levantando questões interessantes sobre a nossa interacção com tecnologia e o controlo que esta pode exercer sobre nós, bem do que é ser humano e quais os limites, ou não, que devemos traçar. Juntamente com as personagens e diferentes diálogos, a história apresenta-se bem escrita. Aliás, a escrita é para mim um dos pontos fortes do jogo. Não só as diferentes caixas de texto e diálogos estão bem escritos, como têm alma, piada genuína e referências várias que vos farão esboçar um sorriso. As personagens têm carisma, profundidade e fazem-vos ter interesse em saber mais sobre elas e o caminho que percorreram para ser o que são hoje. Num jogo tão dependente de texto como este, uma escrita má ou aborrecida é fatal, mas a equipa aqui saiu-se muito bem.

Pouco falámos da nossa personagem, até agora. Isto porque ela corresponde ao arquétipo do herói silencioso, um avatar de nós próprios, o jogador.  Assim, cabe a nós decidir não só nome, mas igualmente o género. E não nos ficamos pelo tradicional binário masculino  / feminino : se a história da concepção do jogo uns parágrafos acima não tivesse sido pista suficiente, confirmo que o jogo é de facto bastante inclusivo no que toca às diferentes identidades sexuais e de género.

Como se traduz isto no jogo? Bom, não só podemos escolher que a nossa personagem seja tratada no feminino ou masculino, como podemos optar por outras soluções não binárias disponíveis. Ou até podemos criar a nossa própria alternativa, a escolha é vossa. Muitos poderão achar desnecessário e mesmo estapafúrdio, mas pessoalmente acho que a opção é bem-vinda e assenta especialmente bem no tipo de jogo e personagem que controlamos. Além de que ninguém é obrigado a escolher uma qualquer terceira opção.

O carácter inclusivo do jogo está igualmente presente em algumas das personagens e paralelismos da história com a nossa realidade. Vão encontrar diversas personagens homossexuais ou de género ambíguo. Mas que são apresentadas, a meu ver,  de forma bastante orgânica, não para fazer figurão. É o caso de Majid, o dono do bar Stardust que, numa das vossas visitas, estando algo ocupado para falar com vocês vos pede para falarem com o namorado que está ao seu lado no bar; ou TomCat, hacker de quem nunca conseguem perceber bem a identidade de género já que é sempre referido na terceira pessoa do plural e a sua figura é bastante andrógena. Tanto Majid como TomCat poderiam ser apresentados com parceira feminina e género definido, respectivamente, com pouco ou nenhum impacto na sua história individual. Contudo, não o são e aí está a beleza da coisa : ambos não são só a sua sexualidade ou o seu género, mas ainda assim, estas são partes integrantes da sua personagem. São pormenores como este, de maior ou menor relevância no mundo do jogo e consoante a opinião individual de cada um, que trazem um colorido especial, e muito bem-vindo, a este jogo. Eu sou dos que considera que uma maior complexidade de narrativa e representação na indústria é algo positivo, e fiquei bem agradado com este aspecto do jogo, especialmente pela forma como foi bem implementado.

Como já mencionado, estamos perante um título do género aventura point & click. Daí que podem esperar longas sessões de texto, interacção com muitas personagens e partes do cenário e alguns puzzles. Esta é provavelmente a parte mais fraca do jogo, uma vez que o jogo é bastante fácil, incluindo os poucos puzzles que apresenta. Um pouco mais de desafio nesta parte teria sido bom, mas felizmente a boa escrita acaba por salvar um pouco a jogabilidade, já que é sempre com alguma curiosidade e prazer que interagimos com as diferentes partes do cenário e personagens só para ver o que nos têm a dizer. O jogo dura algo entre as 10-15 horas, mas para os complecionistas há várias opções de diálogo na vossa interacção com as diferentes personagens e, consequentemente, finais alternativos a atingir.

A grande novidade deste último grande update ao jogo, que coincidiu com o lançamento do jogo na PS4, foi a introdução do voice acting. Deste modo, quase todas as personagens apresentam voice acting, por vezes mesmos para as frases mais banais, ainda que haja algumas discrepâncias.De forma geral considero o voice acting bom, mas não propriamente excelente.Não sei se foi por ter jogado parte do jogo antes de este ter voice acting e de certa forma ter criado na minha mente uma ideia de como seriam as diferentes vozes, mas há ali algo que me deixa meio de pé atrás, ainda que não saiba bem o quê. Mas bom, o voice acting não é, de todo, mau, e por certa que haverão opiniões bem diferentes da minha a respeito do mesmo.

Já no que toca ao grafismo e restante sonoridade não tenho nenhum tipo de reservas. Estes são muito bons e encaixam perfeitamente com o espírito e mundo de 2064 : Read Only Memories. O estilo retro-futurista do grafismo, com o uso de cores vivas e modelos de personagens simples mas ainda assim detalhados e expressivos, é uma delícia visual e, acompanhada da excelente música, são uma maravilha para os nossos sentidos.

2064 : Read Only Memories é um jogo que desde a sua concepção tinha objectivos bem definidos : apresentar um jogo inclusivo e de qualidade. Muita coisa poderia ter corrido mal e termos acabado com um produto de duvidosa qualidade. um mero bluff. Felizmente não é o caso. Não será o jogo perfeito, mas consegue manter um bom equilíbrio entre uma maior representatividade no seu mundo com a qualidade e interesse das personagens e  história, aliada a uma escrita muito saborosa e uma execução técnica exemplar, que tanto enriquecem o jogo. A experimentar, sem dúvida!

 

 

 

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